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sábado, 17 de dezembro de 2016

Decisões - por Franz Kafka

Monumento em homenagem a Kafka no Centro de Praga, República Tcheca.


Decisões

Mesmo com deliberada energia deve ser fácil levantar-se de um estado miserável. Arranco-me da cadeira, ando às pressas em torno da mesa, ponho em movimento a cabeça e o pescoço, injeto fogo nos olhos, distendo os músculos ao seu redor. Trabalho contra qualquer sentimento, saúdo A impetuosamente se ele vier agora, tolero B amistosamente no meu quarto e, a despeito da dor e do esforço, em casa de C engulo tudo o que é dito em tragos largos.

Mas ainda que seja assim, a cada erro, que não pode faltar, tudo - o fácil e o difícil - vai ficar paralisado e eu precisarei girar e voltar ao ponto de partida.

Por isso o mais aconselhável de fato é aceitar tudo, comportar-se como massa inerte e no caso de se sentir atirado longe por um sopro, não se deixar seduzir por nenhum passo desnecessário, fitar o outro com olhos de animal, não sentir remorso, em suma: esmagar com a própria mão tudo o que na vida ainda resta de espectro, ou seja, aumentar a última calma seprucal e não permitir que mais nada exista fora dela.

Um movimento característico desse estado é passar o dedo mínimo por cima das sobrancelhas.

Franz Kafka, conto do livro Contemplação, 1912.